segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Á Espera de um amor

Dia 28 de março de 2009. Seria um dia de rotina na Maternidade Bárbara Heliodora, mas o nascimento do pequeno João Gabriel tirou a normalidade de cena. O bebê nasceu com apenas 27 semanas de gestação, problemas respiratórios e precisou ser submetido a uma cirurgia de hérnia. Até então seria comum, num local preparado para lidar com partos de risco. Mas o carinho materno, tão necessário ao desenvolvimento da criança, lhe foi privado. A mãe biológica o abandonou duas vezes antes de ser presa por enquadramento no artigo 244 do Código Penal. O pai também foi preso. Ninguém na família ficou com a guarda. Mas o destino preparava surpresas boas para João Gabriel, que passou três meses no hospital, sendo cuidado pelas enfermeiras. Enquanto a Justiça decidia tirar o pátrio poder dos pais verdadeiros, o casal Antonela e Maurício* aguardava na fila de espera de adoção. Queriam um bebê de até 1 ano de idade e saudável. João Gabriel lutava para sobreviver na incubadora da maternidade - seu endereço por 90 dias - à espera do aconchego familiar que tanto lhe fazia falta no momento mais delicado de sua vida incerta. Dia 04 de julho também seria um dia normal na vida de seus futuros pais adotivos. Estavam trabalhando quando o telefone tocou anunciando a boa notícia: havia um bebê precisando ser adotado. Não ligaram para o fato da criança ser prematura e com os problemas que todo prematuro tem no início da vida. O queriam incondicionalmente, mesmo sem conhecê-lo. A emoção do telefonema pode ser comparada ao momento do rompimento da bolsa, numa gravidez. Largaram o trabalho e correram direto para o Juizado da Infância e Juventude. Não queriam ver a criança primeiro - como geralmente ocorre. A prioridade era resolver o trâmite legal e entrar na maternidade como mãe e pai do João Gabriel. O encontro foi emocionante. Os novos pais do bebê, que nasceu com apenas 854 gramas, foram seguidos a partir da porta da maternidade. Todos no hospital queriam acompanhar o momento em que então mãe e filho se veriam pela primeira vez. Apesar da cena forte, um neném tão indefeso, cheio de tubos, sozinho na incubadora, o amor nasceu à primeira vista no coração daquela mãe. Desde então ela não saiu mais do lado daquele berço. Foram três dias e três noites até que João Gabriel recebesse alta. "Eu não dormia porque tinha medo que ele passasse mal e eu não visse. No primeiro dia fui mostrar a respiração dele, muito ofegante, para o pediatra. A resposta foi: ‘se acostume. Vai ser sempre assim'. Mas o carinho fez toda a diferença. Passei um dia acalentando ele e no dia seguinte já estava visivelmente melhor", conta a mãe. Quando visitamos João Gabriel e seus novos pais ele estava há apenas três dias em casa. Na manhã seguinte iriam às compras: berço, roupinhas, e tudo o mais que necessita. A família não quis ser identificada, mas não deixou de dar seu depoimento. A história do pequeno sobrevivente é um exemplo da celeridade da Justiça nos casos de adoção, da penalidade em caso de descumprimento da lei pela família e da segurança em achar um novo lar para crianças desamparadas. A mãe biológica do bebê cometeu um crime ao abandoná-lo, o artigo 244 do Código Penal. A prisão poderia ter sido evitada se ela houvesse procurado a Procuradoria da Infância e Juventude e explicado que não teria condições de criar a criança e gostaria de entregá-la para adoção. Este é um esclarecimento que a Justiça tenta fazer a todas as mães que passam por esta dificuldade.
Reportagem: Tatiana Campos

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